74% das empresas não geram valor com IA. O padrão é o mesmo que já condenou os ERPs — e a causa não é a tecnologia.
Algures na vossa rede existe um servidor a correr um ERP. Foi o maior investimento tecnológico da empresa em anos. Tem módulos que nunca foram ativados. A equipa mantém um ficheiro Excel paralelo porque «é mais rápido». O diretor financeiro sabe a palavra-passe; os outros já não se lembram da deles. A consultora que fez a implementação foi entretanto adquirida ou encerrou.
Agora alguém vos está a tentar vender IA.
Se não mudarem nada no método pelo qual tomam esta decisão, o resultado vai ser o mesmo. Não por azar. Por estrutura. Ou falta dela.
O ciclo é reconhecível porque já aconteceu antes. Nos anos 90 e 2000, os ERPs chegaram com o mesmo argumento: demos impressionantes, casos de uso de grandes empresas, urgência competitiva — os vossos concorrentes já estão a fazer isto — e uma fase de implementação que raramente correu como prometido. Hoje, a IA chegou com o mesmo guião.
Os números confirmam o padrão. Num estudo da BCG de 2024, com mil executivos em 59 países, 74% das empresas que investiram em IA afirmam não ter gerado valor tangível. Não é uma excepção silenciosa — é a norma. Mas 26% conseguem. A diferença entre os dois grupos não é orçamento nem sofisticação técnica — é método.
Quando uma PME contrata um ERP, a decisão costuma começar na demonstração. O software parece capaz, o vendedor conhece as objeções de cor, o preço é negociável — e a assinatura acontece antes de qualquer pergunta do processo ser feita. As perguntas que definiriam o sucesso do projeto não foram feitas com respostas completas.
Com a IA, o padrão repete-se com uma agravante: a tecnologia é mais abstracta, mais rápida a demonstrar, e o ciclo de vendas é mais curto. É possível comprar uma solução numa tarde, depois de uma demonstração de quarenta minutos, com base em casos de uso que não têm nada a ver com a vossa operação.
Há um segundo factor que torna este ciclo mais difícil de quebrar: a memória organizacional. Um artigo recente do MIT Sloan Management Review chama a isto change fatigue — a memória racional de projectos anteriores. As equipas que hoje resistem à IA não são avessas à tecnologia. São racionais. Viveram um ERP que prometeu resolver a gestão de stock e criou três passos adicionais para cada encomenda. Viveram um CRM onde só os líderes entram. Viveram um sistema de marcações que a equipa de recepção contorna com uma agenda de papel. Cada novo projeto tecnológico chega com dívida incorporada dos anteriores. Isto não é resistência ao progresso — é informação acumulada sobre o que costuma correr mal.
Os dados de quem gera valor são instrutivos precisamente porque contrariam o instinto habitual de um comprador de tecnologia.
dos desafios reais têm origem em pessoas e processos. Apenas 10% em algoritmos. (BCG)
das organizações que usam IA regularmente estão a gerar valor a nível empresarial. (McKinsey)
das empresas que investiram em IA não geraram valor tangível. A norma, não a excepção.
O que distingue os 6% não é o orçamento. É que redesenharam os processos antes — ou em paralelo — com a adopção tecnológica. Não compraram uma ferramenta à espera que se encaixasse. Partiram do processo que não funcionava, perceberam onde estava a frição, e só depois avaliaram que tecnologia poderia ajudar. O redesenho foi incremental — construído sobre o que a equipa já sabia fazer, não a substituir tudo de uma vez.
Antes de aceitar qualquer apresentação de IA, há três perguntas que valem mais do que qualquer funcionalidade demonstrada.
Qual é o processo que mais nos custa hoje? Não o mais glamoroso — o que gera mais retrabalho, mais reclamações internas, mais tempo a fazer o que não devia ser feito por pessoas.
Como funciona esse processo hoje, passo a passo? Se não conseguem mapeá-lo numa folha de papel em quinze minutos, não estão prontos para o automatizar.
Como vamos medir se melhorou? Não uma nova métrica criada para o projecto — uma que já existe na vossa operação. Se precisarem de inventar indicadores para justificar o investimento, o projeto já nasceu frágil.
Estas perguntas não são para fazer ao vendedor. São para fazer à vossa equipa, antes de entrar em qualquer sala de demo.
Quando a equipa resiste a uma nova ferramenta, o reflexo habitual é acelerar a formação, aumentar a pressão, ou mudar de ferramenta. Raramente alguém pergunta: o que é que esta resistência nos está a dizer sobre o processo?
A fadiga acumulada nas vossas equipas não é um obstáculo à adopção de IA. É diagnóstico. Diz-vos onde os projectos anteriores pararam a meio, onde os processos nunca foram completamente resolvidos, onde a tecnologia foi comprada antes das perguntas certas serem feitas.
Qual é o processo que mais dói na vossa operação hoje?
A IA não resolve isso automaticamente. Mas se começarem pelo processo — antes da demo, antes do contrato, antes da formação — têm uma hipótese real de não repetir o ciclo.
A IA não falha por ser má tecnologia.
"Falha porque chega antes das perguntas certas."
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